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#EuPCD: são as decisões, não as condições, que determinam seu destino

Esporte

Samuel Bortolin

*Por Samuel Bortolin, paratriatleta

 

O nascimento de um filho mexe com qualquer pessoa. Quando são dois, a emoção é ainda maior. Mas, quando uma das crianças não resiste a um parto prematuro e o outro é diagnosticado com deficiência, ou você vive o luto, ou você vai à luta. Os meus pais escolheram lutar e eu escolhi seguir na batalha.

 

No momento do meu nascimento, os meus pais ainda não sabiam sobre minha deficiência. Fui para a UTI junto com o meu irmão gêmeo e eu consegui recuperar, diferente dele, que faleceu. Voltamos para Barreiras, minha cidade natal, e minha mãe começou a perceber que eu não tinha o movimento igual a de crianças da minha idade. Ela começou a viajar em busca de respostas e, com menos de um ano, fui diagnosticado com paralisia cerebral.

 

Foi aí que a primeira de várias barreiras precisou ser superada. Por morar no interior, não havia nenhum fisioterapeuta ou educador físico na minha cidade. Os tratamentos eram feitos em Brasília, em uma distância de 650 quilômetros. A cada dois meses ia à capital federal, passava semanas em tratamento e ainda tinha um reforço em casa com minha mãe, que doava de três a quatro horas do seu dia para mim. Sem ela, nunca teria conseguido andar.

 

Com minhas próprias pernas e uma cirurgia unificada que realizei aos 7 anos, batalhei para me manter de pé e comecei a trilhar meu próprio caminho. De Barreiras fui à Fernandópolis, que fica no interior de São Paulo, para estudar direito. Sem carro, comecei a me locomover pela cidade de um lado para outro, em uma distância de 4 a 8 quilômetros. Comecei a ganhar condicionamento e, para começar a correr, seria um pulo.

 

Claro, não seria fácil. Betinho, o personal que coordenava meus treinamentos, sugeriu a corrida. Sinceramente? Eu achei aquilo horrível. O primeiro pique que dei, em uma distância de 60 a 70 metros, me fez passar mal, com ânsia. Mas não seria uma barreira. No dia seguinte, dobrei o trajeto. Devagarinho, entre vários tropeços devido a fraqueza da minha musculatura, consegui potência, equilíbrio e virei um corredor.

 

Só que, ainda como apenas um corredor, eu precisava correr atrás dos meus sonhos. Lembram que eu estava em Direito? Eu queria me envolver com o esporte, coisa que sempre fui apaixonado. No segundo ano do curso, pensei em largar e ir para a Educação Física. Foi nesse meio tempo que meu caminho se cruzou com Tite. Sim, Tite, o treinador da seleção brasileira.

 

Em uma das conversas que tive com ele, ouvi a recomendação de fazer os dois cursos, já que o Direito seria importante para mim. Tite, assim como eu, também é formado em duas áreas. Você acha que eu seria maluco de negar os conselhos dele? Ouvi também a promessa de um estágio de uma semana com o treinador, assim que eu estivesse em educação física. Essa promessa foi em novembro. Em fevereiro, já matriculado em educação física, estava do lado dele, estagiando.

 

Para dar mais um pulo seria questão de tempo. Quando retornei para Barreiras, corria com o pessoal que fazia triatlo. O interesse foi quase imediato. Eu já tinha nadado e pedalado, mas nunca pensando no triatlo. Aliás, para a natação, foi outra luta. O esporte sempre foi o mais recomendado para o meu tipo de deficiência, mas nunca tinha conseguido nadar.

 

Coloquei na minha cabeça que era hora de procurar alguém para me orientar e, em um ano, iria para o triatlo. Ninguém mudaria isso. Aprendi a respirar na água, a flutuar e quando consegui atravessar a piscina pela primeira vez, comemorei como se fosse uma medalha. Com a técnica, só me restava desenvolver o condicionamento, o que já facilitou as coisas.

 

Para ter a técnica da bicicleta, precisei desenvolver uma espécie de triciclo adaptado. Como isso demorou, precisei treinar em bicicletas ergométricas, aquelas que tem em academia. Depois, com a bike adaptada pronta, precisei apenas ir para a rua.

 

Eu sempre procurei alternativas além da fisioterapia. Queria competir, queria ir para a rua, queria me movimentar. Só quis tudo isso porque meus pais me ensinaram que eu deveria ir à luta.

 

Ninguém está pronto para receber a notícia que seu filho tem paralisia cerebral. Quando digo em viver o luto, é perguntar o porquê isso acontece com você, culpar Deus e outras pessoas. A luta é você perceber que, devido a sua condição especial, você precisa lutar para mudar a vida do seu filho, para que ele possa ter autonomia e, principalmente, felicidade.

 

Quando palestro, sempre busco deixar uma mensagem que é: “São suas decisões e não suas condições, que determinam o seu destino”. Busco viver em um mundo que as pessoas sejam felizes, com motivação para buscarem seus sonhos. Quando você percebe que não há barreira (ou barreiras) que te segurem, você sempre consegue alcançar seus objetivos.

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