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#EuPCD: antes, apontavam para mim. Hoje, apontam para as medalhas

Esporte

daniel dias

*Por Daniel Dias, nadador e medalhista paralímpico

**foto por Daniel Zappe/MPIX/CPB

 

A infância é uma fase quase idêntica a todos. Ela envolve algumas brincadeiras na rua, pequenas traquinagens de criança e muitos amigos. De vez em quando, aparece também o bullying. Agora, imagine como era o bullying para quem nasceu sem parte dos membros.

 

Naquela época, ainda em Camanducaia, era difícil ser uma criança feliz. Foram vários os dias que eu chorei enquanto voltava para casa, mas nessa hora entrou o maior prêmio que já ganhei: a minha família. Antes de qualquer medalha, foram eles que me fizeram levantar a cabeça.

 

Meu maior obstáculo era, desde pequeno, aprender a enfrentar o preconceito das pessoas. Eu tive que aprender a adaptar a minha vida e as atividades do cotidiano. Consegui entender que as dificuldades existiam para todos e para mim não seria diferente somente por conta da minha deficiência.

 

Mas lembra da minha família? O apoio deles era 100%. Eles me ajudavam emocionalmente, nas adaptações necessárias e me acompanhavam nas atividades. Minha mãe, certa vez, costurou uma braçadeira especial para que eu pudesse realizar o primeiro sonho, que era tocar bateria.

 

Falando em sonhos, uma vez eu tive um. Era 2004 e eu estava acompanhando os Jogos Paralímpicos de Atenas pela televisão. De repente, Clodoaldo Silva apareceu na raia, se preparando para mais uma prova de natação. Foi quando eu falei comigo mesmo: “eu quero fazer isso e representar meu país”.

 

Nessa hora, eu percebi que o esporte seria a minha vida. Tudo que tenho hoje foi fruto do que eu fiz no e pelo esporte. Ele ajudou a me formar enquanto pessoa e enquanto profissional. As 24 medalhas conquistadas em três olimpíadas já dizem por si só. Hoje, em vez de apontarem para mim, apontam para elas.

 

Ter me tornado uma inspiração para outras pessoas com deficiência foi uma das maiores honras que pude receber. Pensar que hoje posso fazer o mesmo que o Clodoaldo fez comigo é gratificante. Passar a mensagem de que não há barreiras que nos limitem, mostrar que há muitas habilidades… Hoje, consigo mostrar que não precisamos do sentimento de pena.

 

Se tem uma coisa que eu aprendi, é que tanto um PCD quanto uma pessoa sem deficiência encontra obstáculos na vida. A diferença é como você vai encarar essa dificuldade. A deficiência não precisa (e nem é) limitadora.

 

Claro, ainda há muito trabalho pela frente. A igualdade ainda é longe da realidade, as ruas não são preparadas para deficientes visuais, os restaurantes não são preparados para cadeirantes ou amputados, muito menos há um cardápio em braile. Ainda há muita dificuldade, mas a maior delas é a falta de conhecimento. Se todos nos ouvirem, entenderem as nossas deficiências e como lidar com elas, poderíamos ter ganhos maiores.

 

Para quem ainda está sem esperança, eu digo: a vida é bela. Escolha ser feliz! Nós podemos ter uma vida digna no meio da sociedade. Eu confio que viveremos em um mundo com acesso livre para as pessoas com deficiência e deposito minha energia nisso todos os dias. Em tudo que faço, busco dar a minha contribuição, porque quebrar barreiras depende de mim e de cada pessoa que nesse mundo vai viver. Cada um faz a sua parte. Vamos fazer a nossa?

 

*Daniel Dias é nadador e medalhista paralímpico brasileiro. Detentor de 24 medalhas, o atleta conta no Acesso Livre como é a o dia-a-dia de um campeão no esporte e na vida.

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